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Por: José Benedito Medeiros

18-10-2025

Como se lê um artigo de opinião (para alunos)

Um aluno, quando está aprendendo sobre o gênero textual artigo de opinião, ao ler um texto para se apropriar do seu modelo, como exemplo, deve encarar o texto como alguém (o autor, por suposto) que está emitindo sua opinião numa exposição oral, num debate, sobre determinado assunto. Então, a primeira coisa que esse leitor deve se perguntar é: o que esse sujeito está defendendo sobre esse tema, que claramente está anunciado em síntese no título? A partir dali, nos primeiros parágrafos, onde normalmente se encontra o posicionamento do autor, o aluno leitor deve procurar essa resposta. Logo em seguida, depois de se valer de um marcador de textos ou sublinhar a parte encontrada, ele deve perguntar-se, estabelecendo um objetivo para a continuidade de sua leitura, como o autor justifica o que acabou de afirmar como tese; em que base ou elementos sólidos quer fazer me convencer sobre o que defende. Daí então, o aluno munido dessa intenção, de descobrir em como o autor do texto vai sair dessa enrascada que se meteu, vai ler o desenvolvimento, ou seja, os parágrafos restantes destinado a apresentação das "provas" ou evidências que dão sustentação à sua premissa inicial.


Em um segundo momento, o estudante pode fazer uma leitura mais detalhada observando expressões, palavras e intertextos, para compreender os sentidos que o autor quis imprimir em certas passagens.


As questões que o aluno preenche no livro didático, de forma um tanto automática, nas atividades de análise dos textos, perderam a função essencial da leitura de qualquer texto, a  a do desenvolvimento de um leitor crítico. Pois ao ler o texto de forma desinteressada, sem um objetivo definido previamente, ainda que sabendo superficialmente a tipologia do gênero textual, e logo em seguida responder as questões que lhes são propostas como teste de compreensão, pouco contribui para o exercício de uma leitura crítica.


Ao enfrentar o texto a primeira vez, o aluno leitor, pouco pode  compreender-lo e, ao voltar- se a ele numa segunda leitura, a fim de responder às questões, cria se nele um sentimento de frustração ao precisar lê- lo uma segunda vez e por ter passado despercebido pontos essenciais que, por vezes, só podem ser alcançados com uma leitura atenta e orientada; coisa que, com alguma disposição o professor pode oferecer, na leitura conjunta. Neste caso, o professor já está em posse das informações principais, pois já fez o seu trabalho de desvendar o texto, por essa razão, o aluno fica em desvantagem quando lhe é proposto que faça uma leitura autônoma do texto em estudo.


Pois essa maneira de treinamento sem questionar o texto para orientar a leitura é uma tentativa desastrada de tornar  prática a leitura crítica algo natural.


Por: José Benedito Medeiros

20-01-2025

Saudade de que?

Saudade é um sentimento brasileiro, é o que dizem, pelo menos no que diz respeito à língua. Não sei se em outros idiomas e culturas esse sentimento tem uma correspondência com a nossa expressão. Acredito que o sentimento que denominamos de saudade é parte de nossa natureza humana, portanto não importa muito como o chamamos e quão preciso é a palavra; é fato que certa emotividade é mais acentuada em alguns povos - os brasileiros tem fama de serem hospitaleiros, assim como em outros lugares tem suas particularidades.

A saudade às vezes é confundida com nostalgia, nem sempre se distinguem bem as duas coisas; enquanto uma reflete positividade, alegria de um momento vivido, outra remete à melancolia, um tom que perigosamente se envereda para a depressão. Entretanto, alegria e tristeza se aproximam e se dissolve, de certa maneira, em nosso tempo. No tempo da virtualidade, toda alegria aparenta ser fingida, retocada no photoshop. Todas as apresentações de boa vida e felicidade, recorrentemente anunciadas nas redes sociais, são passíveis de desconfiança.

Somos incapazes de perceber o nosso momento presente. Arrastamos-nos pelo tempo. Nos esforçamos para dar conta das obrigações, que nos são impostas e aquelas que nos comprometemos. Desejamos estar com aqueles que amamos, gastar um pouco da vida da melhor forma possível naquilo que temos prazer. Não fazemos uma análise racional desses momentos, não cabe investigar o que nos move a alma. Às vezes, muito raramente , pensamos na razão do bem estar daquele momento e buscamos condições para outros momentos como estes ou melhor. Só queremos sorver cada néctar desses instantes. Cada frame desse registro plotado no tempo, é deixado para trás; será reunido a outros frames, em outros instantes do tempo, gravados indelével na memória. Todavia, somente as imagens mais nítidas retornarão com alguma frequência, regidos pelo sentimento da saudade.

Saudades não são concretas o suficiente, exceto metaforicamente, para guardarmos em um cofre ou debaixo do travesseiro, acessíveis a qualquer momento que desejarmos revivê-las, de tateá-las como uma imersão em exposição artística moderna. Elas são delicadas como o cristal, extremamente sensíveis ao estado de espírito de quem a invoca. As impressões que nos chegam na memória, não passam de fragmentos mais ou menos vivos; os detalhes se perdem sem muita importância. Mas o sentimento é puramente de alma: as imagens, o aroma, o som, todas as impressões dos sentidos só são uma pálida tentativa de revivermos o que ficou perdido no tempo.

A desculpa do aleijado é a muleta, diz o dito popular, a saudade é como uma muleta para os que fogem da angústia dos maus tempos, daqueles que desistiram de acreditar na vida, na humanidade. Confesso, embora esse misto de sentimento me invade a alma, me recuso a me apoiar nas muletas da saudade. Tenho um sei o que de repulsa de buscar no passado um refúgio para os tormentos presentes. Talvez por medo ou vergonha de aceitar uma certa incapacidade de arriscar-me a ser como normalmente o que se espera de qualquer pessoa hoje.

Nisso a saudade pode se transformar numa nostalgia, carregada de pessimismo, de desesperanças, por um desejo de superar um presente que não se desejava, que não se queria, ou que se esperava. Uma frustração pode ser o que melhor resume essa confusão mental de se submeter a ser parte de um todo que não se coaduna.

No mais das vezes a saudade parece mais um prêmio de consolação, dados aos jogadores da vida que disputam migalhas de felicidade. Uma medalha simbólica de algo intangível pois o valor está na disputa, na emoção da partida. O prêmio é sempre de consolação porque nunca chegamos em primeiro lugar e precisamos estar prontos para os próximos campeonatos e assim, sucessivamente, competimos e competimos, como num loop eterno.