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Por: José Benedito Medeiros

14-07-2026

Cadastro

Seria a descoberta de como pensam as pessoas de meia idade? De como elas costumam apresentar aquele comportamento insuportável de chatice e impaciência? Ou que o mundo anda muito exigente e burocrático?


Na época da tecnologia computacional vivemos um fenômeno da superabundância de informação, algo que, naturalmente tornou nossas vidas muito mais fácil e prática no que diz respeito à soluções rápidas para muitos problemas diários, como por exemplo  manusear um eletrodoméstico, realizar pagamentos, aprender a consertar um vazamento, a destravar um cadeado, além de muito outros benefício de uma informação rápida. É só digitar a palavra chave na Barra de pesquisa  e num passe de mágica se desfilam páginas e páginas de informações sobre aquele assunto.


Entretanto, como tudo no universo tem sua porção negativa, era de se esperar que nem tudo fossem flores. Um desses inevitáveis males é que quase tudo que se  faz na rede, no universo da internet, precisa se de um famigerado formulário a ser preenchido. O irritante desse inconveniente é que, é questionável a necessidade de que tudo que se faça, você precisa se identificar, dar informações pessoais, indicar um email ou conta de rede social só para ter o privilégio de receber uma enxurrada de propaganda em qualquer canal em que estiver acessando. Como se não bastasse isto acontecer no ambiente virtual, também ocorre no nosso dia a dia, como seres humanos de carne osso.


Outro dia entrei numa dessas farmácias de esquina - hoje em dia elas não estão somente nas esquinas mas aos milhares nos espaços ao longo de qualquer avenida, pois bem, precisava comprar umas caixinhas de remédio para minha esposa. Esses medicamentos  são do tipo controlado, ou seja, com receituário médico, dentro do prazo estipulado e com a dosagem correta, geralmente são aqueles que ficam guardados numa salinha no fundo do recinto.


A jovem atendente pegou da receita e  decifrou aqueles garranchos como se lesse os ingredientes de um bolo qualquer. Pesquisou no banco de dados a quantidade armazenada e disponível  no estoque da farmácia. Depois de uma rápida ida a tal salinha, trouxe os remédios. Fiquei animado pois desejava sair rapidamente daquele lugar, não imaginava que teria que ficar bem uma meia hora, sendo que a farmácia estava vazia de clientes. Pois então foi a novela do cadastro. Ela pediu o número do CPF. Dei-lhe de cor. Teclou rapidamente os números, olhou na tela e perguntou se tinha convênio. Disse-lhe que tinha o do Iamsp, o convênio do servidor público. Novamente olhou para a tela e me disse que já havia um cadastro com o meu número de CPF em nome de minha esposa e perguntou se eu sabia o CPF dela. Pensei comigo, o que isso importava? Ela já não tinha um maldito cadastro? Por que as coisas não eram simples como antigamente quando as pessoas pediam o que necessitavam pagavam e iam embora sem maiores problemas? Daí ela pediu meu CPF novamente, para realizar um novo cadastro. Fiquei um pouco aborrecido em ficar repetindo dados que ela já dispunha do outro cadastro. Bastava uma consulta rápida, um Control C e um Control V e pronto.


Tive uma leve impressão que estava me testando, aquele jogo fora de hora não tinha o menor cabimento, pois perguntou-me do CEP. Rapidamente soletrei número por número, estava craque em decorar números. Telefone para contato? Número da casa? Prontamente recitado, sem titubear. Enfim, meteu os remédio numa cestinha e me orientou a me dirigir ao caixa, próximo à entrada da loja.


Como se fosse parte de um plano maquiavélico entre os funcionários da loja em fazer os clientes perderem tempo, o caixa fez sua demora habitual. Olhou caixa a caixa, conferiu dados, validades, perguntou se eu queria registrar a compra no meu CPF,disse que não. Mais uma vez perguntou se eu tinha convênio. Perguntou à atendente  se tinha incluído o desconto, foi aquela enrolação que tive que me segurar calado. Enfim, liberou-me para o pagamento como se estivesse limpo de algum suposto crime. Paguei-lhe e sai correndo dalí aliviado, prometendo a mim mesmo nunca mais pisar no chão daquela farmácia.


Por: José Benedito Medeiros

14-07-2026

A lua

Foi eu quem quebrou a lua.

Ela ficou lá esbagaçada no chão,

No quintal de Maria.

Parecia feita de bala de coco,

Aquele confeito nordestino,

Doce como um beijo de moçinha apaixonada.

O motivo? Não sei.

Não sei o que me deu na cabeça.

Talvez fosse o seu feitiço que me alucinava,

Nas noites quentes,

Desde os tempos de menino.

 Desejando loucamente possuí-la,

De ficar pertinho.

De fundir-me com ela, tal qual um inseto,

Ofuscado pela beleza da luz,

Não pode desvencilhar-se.