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Por: José Benedito Medeiros

20-01-2025

Saudade de que?

Saudade é um sentimento brasileiro, é o que dizem, pelo menos no que diz respeito à língua. Não sei se em outros idiomas e culturas esse sentimento tem uma correspondência com a nossa expressão. Acredito que o sentimento que denominamos de saudade é parte de nossa natureza humana, portanto não importa muito como o chamamos e quão preciso é a palavra; é fato que certa emotividade é mais acentuada em alguns povos - os brasileiros tem fama de serem hospitaleiros, assim como em outros lugares tem suas particularidades.

A saudade às vezes é confundida com nostalgia, nem sempre se distinguem bem as duas coisas; enquanto uma reflete positividade, alegria de um momento vivido, outra remete à melancolia, um tom que perigosamente se envereda para a depressão. Entretanto, alegria e tristeza se aproximam e se dissolve, de certa maneira, em nosso tempo. No tempo da virtualidade, toda alegria aparenta ser fingida, retocada no photoshop. Todas as apresentações de boa vida e felicidade, recorrentemente anunciadas nas redes sociais, são passíveis de desconfiança.

Somos incapazes de perceber o nosso momento presente. Arrastamos-nos pelo tempo. Nos esforçamos para dar conta das obrigações, que nos são impostas e aquelas que nos comprometemos. Desejamos estar com aqueles que amamos, gastar um pouco da vida da melhor forma possível naquilo que temos prazer. Não fazemos uma análise racional desses momentos, não cabe investigar o que nos move a alma. Às vezes, muito raramente , pensamos na razão do bem estar daquele momento e buscamos condições para outros momentos como estes ou melhor. Só queremos sorver cada néctar desses instantes. Cada frame desse registro plotado no tempo, é deixado para trás; será reunido a outros frames, em outros instantes do tempo, gravados indelével na memória. Todavia, somente as imagens mais nítidas retornarão com alguma frequência, regidos pelo sentimento da saudade.

Saudades não são concretas o suficiente, exceto metaforicamente, para guardarmos em um cofre ou debaixo do travesseiro, acessíveis a qualquer momento que desejarmos revivê-las, de tateá-las como uma imersão em exposição artística moderna. Elas são delicadas como o cristal, extremamente sensíveis ao estado de espírito de quem a invoca. As impressões que nos chegam na memória, não passam de fragmentos mais ou menos vivos; os detalhes se perdem sem muita importância. Mas o sentimento é puramente de alma: as imagens, o aroma, o som, todas as impressões dos sentidos só são uma pálida tentativa de revivermos o que ficou perdido no tempo.

A desculpa do aleijado é a muleta, diz o dito popular, a saudade é como uma muleta para os que fogem da angústia dos maus tempos, daqueles que desistiram de acreditar na vida, na humanidade. Confesso, embora esse misto de sentimento me invade a alma, me recuso a me apoiar nas muletas da saudade. Tenho um sei o que de repulsa de buscar no passado um refúgio para os tormentos presentes. Talvez por medo ou vergonha de aceitar uma certa incapacidade de arriscar-me a ser como normalmente o que se espera de qualquer pessoa hoje.

Nisso a saudade pode se transformar numa nostalgia, carregada de pessimismo, de desesperanças, por um desejo de superar um presente que não se desejava, que não se queria, ou que se esperava. Uma frustração pode ser o que melhor resume essa confusão mental de se submeter a ser parte de um todo que não se coaduna.

No mais das vezes a saudade parece mais um prêmio de consolação, dados aos jogadores da vida que disputam migalhas de felicidade. Uma medalha simbólica de algo intangível pois o valor está na disputa, na emoção da partida. O prêmio é sempre de consolação porque nunca chegamos em primeiro lugar e precisamos estar prontos para os próximos campeonatos e assim, sucessivamente, competimos e competimos, como num loop eterno.

Por: José Benedito Medeiros

08-01-2023

As cores da vida

Sr. B. gosta de cores neutras, se veste assim quando sai de casa para um evento importante, desses que reunem muitas pessoas. Não quer chamar a atenção. Introspectivo e, na maioria das vezes, está sempre com a alma distânte. As cores são denunciântes, elas berram o seu nome, diz coisas sobre você que não quer compartilhar com outros, ele pensa, enquanto se afasta da multidão e procura um lugar tranquilo para sentir o prazer da vida. Mas, uma contradição o trai: ele ama ver a natureza verdejante, as cores, mais do que as formas nas pinturas, o azul puro do céu e o vermelho alaranjado vibrante do por do sol.