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Por: José Benedito Medeiros

08-01-2023

As cores da vida

Sr. B. gosta de cores neutras, se veste assim quando sai de casa para um evento importante, desses que reunem muitas pessoas. Não quer chamar a atenção. Introspectivo e, na maioria das vezes, está sempre com a alma distânte. As cores são denunciântes, elas berram o seu nome, diz coisas sobre você que não quer compartilhar com outros, ele pensa, enquanto se afasta da multidão e procura um lugar tranquilo para sentir o prazer da vida. Mas, uma contradição o trai: ele ama ver a natureza verdejante, as cores, mais do que as formas nas pinturas, o azul puro do céu e o vermelho alaranjado vibrante do por do sol.
Por: José Benedito Medeiros

16-04-2022

Música língua sem palavras

É extremamente difícil definir música sem cair numa conceituação comum de que ela é uma arte que se serve para exprimir ideias, sentimentos,etc. através do som, isto já se tornou um clichê. Penso que há algo mais que vai além dessa singela definição, porque ela nos é tão significativa e misteriosa, transcendente às vezes, e acompanha a existência humana desde sempre, quase como se fosse a própria natureza mesma das coisas, assim como é o céu, as árvores, animais, as estações, etc. porém, numa dimensão muito particular, circunscrita a natureza do homem.

É uma arte temporal que se assemelha ao fluxo da consciência, como definiu Diderot - nas aulas de estética, isso me pareceu muito revelador,ainda não tive oportunidade de buscar a referência original. É mais fácil descrever o que ela evoca ou provoca, do que defini-la de fato. Os teóricos sempre a compararam com a linguagem verbal, concordo que ela seja um tipo de linguagem assim como é outras artes - quem sou para contestar isso, e penso que ela tem muito em comum com a língua falada.

São signos sonoros, assim como a fala, que não tem uma motivação direta com o objeto que a representa, assim também como a fala também (há controvérsia quanto a isso) pois as significações dos signos linguísticos, na denominação das coisas, como Saussere definiu, (significado, significante) são mais uma convenção dos grupos sociais do que uma emanação do próprio objeto. Isso explica porque cavalo, em português, é pferd em alemão e cheval em francês, poderíamos chamá-lo de qualquer coisa, de “relógio”, por exemplo.

Apesar de existir parentescos entre as várias línguas existentes, o significante não tem relação alguma com o objeto. Assim é um pouco da natureza da música em que suas várias significações geralmente são atribuições resultantes de convenções das percepções de um grupo social.

Se a língua verbal dá nome às coisas concretas e subjetivas e, neste segundo caso ela produz uma profusão de significados, por sua natureza polissêmica; já música é capaz de ir mais além, ela só pode se referir aquilo que não é concreto, e por isso da sua natureza transcendente (na minha humilde opinião). Assim, posso arriscar a dizer que a música é a linguagem do não dito, das significações arbitrárias e, pegando aquela ideia de Diderot é a linguagem que mimetiza a consciência.