16-04-2022
Hoje foi um dia bastante agradável na escola, pois foi um dia de reunião extraordinária. Este fato deu-nos um momento de paz durante a longa semana. Embora fosse quarta-feira, o meio da semana, para quem dá aulas para salas cheias de alunos interessados em tudo menos nas matérias ordinárias da escola, foi sim um grande alívio, uma boa retomada de ar.
Disse que era uma reunião extraordinária porque não se tratou de informar aos pais sobre notas, rendimento de aprendizado, indisciplina, etc., como comumente são as reuniões. A pauta foi séria e realmente necessária para aquele momento de comoção pública, por conta do ocorrido na escola Raul Brasil em Suzano: o massacre na escola pública estadual, no qual dois garotos armados mataram oito pessoas entre alunos e funcionários. Na minha humilde opinião, a reunião deveria ter acontecido na semana seguinte, na segunda, acho que o impacto seria maior do que foi hoje, à praticamente uma semana depois do fato. A escola demorou um pouco em fazer um trabalho de conscientização com os alunos, para acalmar-lhes os ânimos e de orientar os pais sobre as atitudes que a escola estava tomando dali em diante, com relação à segurança dos filhos. Entretanto, a reunião foi válida, pois ainda estava muito fresca em nossas memórias todas aquelas cenas horríveis que os jornais televisivos não paravam de replicar.
Embora a pauta fosse preocupante e carregada de emotividade, o clima geral no curto período que se seguiu após a reunião, foi mais descontraído. Os pais ainda deveriam se encaminha às classes para assinar as listas de chamadas, atualizar os números de telefones e ainda tomar ciência do comportamento dos filhos. Foi também um momento de conhecer- los das turmas novas ou rever dos alunos já conhecidos.
Encontrei-me com um caro amigo, um professor de educação física, como contratado, havia voltado naquela semana para pegar algumas aulas como eventual. Foi muito agradável vê-lo novamente. Na verdade já o tinha visto, rapidamente, a dois dias antes no mercado. Entramos no assunto.
A violência entre os jovens de hoje não pode ser atribuídas apenas aos games de temas violentos, naturalmente há vários fatores que contribuem para esse tipo de consequências que vem ocorrendo não só no Brasil, ainda uma novidade desagradável para a nossa sociedade e apavorante para quem trabalha na educação, uma vez que massacres desse tipo é recorrente em espaços escolares. Entretanto, violência não é uma característica exclusiva dessa geração. A fase da adolescência sempre foi muito conturbada e marcada por atos de automutilação, suicídios e mesmo homicídios. Nessa fase da vida, a construção de uma identidade se dá por fortes conflitos internos, nos quais se opõem sonhos e a dura realidade, o desejo de conquistar o mundo e as restrições das regras sociais, a tão desejada independência e o peso da responsabilidade - até então palavra que velhos gostam de repetir quando dão sermões. Além de lidar com transformações brutais com o corpo físico, com a autoimagem e seu lugar quanto a participante de um grupo familiar e social.
A contribuição realmente significante desta época é a tecnologia, mas especificamente o acesso a informação via internet que acontece de modo tremendamente impactante para a nossa visão de mundo, que é sempre uma construção subjetiva, filtrada, abertamente conduzida por bolhas calculadas por algoritmos precisos. O alcance de relacionamentos é instantâneo e global, a rede virtual permite a mágica de estarmos conectados com o mundo em segundos. Absorvendo conhecimentos, compartilhando ideias e comportamentos, interagindo e nos identificando com grupos nos quais somos simpáticos. Isso nos dá uma dimensão de como ideologias e comportamentos são replicados rapidamente pelo mundo.
As teorias que conceituam sobre essa época pós moderna esclarece que as narrativas que sustentam como um fio condutor das gerações passadas, ou seja, os fatos históricos, as religiões, o cristianismo, notadamente, as filosofias, ou a própria importância do conhecimento como construção de uma sociedade mais equilibrada ética e socialmente, caíram em descréditos para essa geração; hoje impera a incerteza, a virtualidade que coexiste e se confunde com a realidade, a verdade e a mentira se misturam se desintegram na sua fragmentada dualidade. O conhecimento deixa de ser um processo em camadas que se sobrepõem gradativamente sobre uma base firme conceitual l encaminhando para sua maior complexidade inter relacional. Mas se volatiza, pois é criada a ilusão de uma contínua renovação de ideias e meios de resoluções.
Há uma falsa crença de que as tecnologias digitais tem poderes de prover respostas milagrosa para solução de todos os tipos de problemas do mundo. Sem dúvida, é uma ferramenta útil e auxiliadora nas busca de resoluções de boa parte destes problemas, porém, no que diz respeito a esclarecer a complexidade da nossa natureza humana, meio anjo meio demônio fortemente afetado pelo meio social, nada pode fazer senão dar maior visibilidade para o que há de comum e banal em nosso comportamento e crenças além de um completo desconhecimento do outro e uma superexposição de si mesmo.
Mas estas questões não cabe a essas ferramentas "milagrosas" resolvê-las, é sim mais uma pagina do qual as ciências humanas já têm a muito se debruçado e terão, sem dúvida muito a pesquisar e a refletir sobre esse fenômeno.
16-04-2022
O que mais me impressiona em Shostakovich é seu trabalho com os timbres, seja para imprimir um clima jocoso ou com certo tom de sarcasmo, principalmente com o uso dos metais - o trompete, mais frequentemente, ou para imprimir uma profunda atmosfera melancólica com a sonoridade das cordas, por vezes até sombria.
Nota-se nele uma cuidadosa combinação de instrumentos que compõe uma sonoridade muito específica; há, com certeza , penso eu, muito aproveitamentos de materiais e ideias colhidas de sua experiência com trabalhos em trilhas sonoras para filmes. Não é a toa que de vez enquanto, em uma passagem ou outra, sugere uma daquelas cenas patéticas de filme mudo, como acontece no andamento rápido deste concerto, provavelmente o compositor não tivesse a intenção, ou buscasse outro tipo de evocação, ou não...
Outro aspecto marcante da sua música é a sua construção melódica muito característica, ainda bastante tonal, com centros tonais bem identificáveis, perspectivos, diria Koellreutter, ainda que entre perturbações modulatórias – por razões, que sabemos ser, devido à pressões políticas e ideológicas, do contexto histórico russo daquele momento. Muitas vezes um jogo de intervalos, em curvas sinuosas, compõe um motivo muito marcante que se repete insistentemente. O solo do piano neste concerto, também em algumas sonatas, principalmente a de número 2, mostra um virtuosismo frenético, neste parece fazer um alusão ao ritmo de ragtime no final do último movimento; somado a este fato as dinâmicas extremadas e com rápida evolução, de um pianíssimo a um fortíssimo súbito e mudanças de andamento só reforçam esse tom um tanto desesperado e ao mesmo tempo debochado.
Aqui também é bastante claro que a orquestra deixa de ser uma mera coadjuvante e divide a performance sonora com igualdade de importância com o solista. Enfim, em minha modéstia interpretação de apreciador e mais do que especialista é um compositor que soube imprimir uma música que relaciona um alto domínio técnico da composição com uma carga expressiva extraordinária.