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Por: José Benedito Medeiros

16-04-2022

Resenha : Shostakovich Piano Concerto No 1

O que mais me impressiona em Shostakovich é seu trabalho com os timbres, seja para imprimir um clima jocoso ou com certo tom de sarcasmo, principalmente com o uso dos metais - o trompete, mais frequentemente, ou para imprimir uma profunda atmosfera melancólica com a sonoridade das cordas, por vezes até sombria.

Nota-se nele uma cuidadosa combinação de instrumentos que compõe uma sonoridade muito específica; há, com certeza , penso eu, muito aproveitamentos de materiais e ideias colhidas de sua experiência com trabalhos em trilhas sonoras para filmes. Não é a toa que de vez enquanto, em uma passagem ou outra, sugere uma daquelas cenas patéticas de filme mudo, como acontece no andamento rápido deste concerto, provavelmente o compositor não tivesse a intenção, ou buscasse outro tipo de evocação, ou não...

Outro aspecto marcante da sua música é a sua construção melódica muito característica, ainda bastante tonal, com centros tonais bem identificáveis, perspectivos, diria Koellreutter, ainda que entre perturbações modulatórias – por razões, que sabemos ser, devido à pressões políticas e ideológicas, do contexto histórico russo daquele momento. Muitas vezes um jogo de intervalos, em curvas sinuosas, compõe um motivo muito marcante que se repete insistentemente. O solo do piano neste concerto, também em algumas sonatas, principalmente a de número 2, mostra um virtuosismo frenético, neste parece fazer um alusão ao ritmo de ragtime no final do último movimento; somado a este fato as dinâmicas extremadas e com rápida evolução, de um pianíssimo a um fortíssimo súbito e mudanças de andamento só reforçam esse tom um tanto desesperado e ao mesmo tempo debochado.

Aqui também é bastante claro que a orquestra deixa de ser uma mera coadjuvante e divide a performance sonora com igualdade de importância com o solista. Enfim, em minha modéstia interpretação de apreciador e mais do que especialista é um compositor que soube imprimir uma música que relaciona um alto domínio técnico da composição com uma carga expressiva extraordinária.

Por: José Benedito Medeiros

16-04-2022

Cidadania no mundo globalizado

A pergunta que me faço é quem seria essas "comunidades políticas"? Por um lado você tem as associações que buscam, senão o equilíbrio das distorções de um política neoliberal, cada vez mais agressiva, ao menos, lutar por manutenção de direitos mínimos, ou seja, educação, saneamento básico, saúde, moradia, igualdade de gêneros, etc. que, aliás, corresponde àqueles de uma cidadania global. Por outro lado, há outras organizações que claramente expressam, ruidosamente, a garantia de direitos e privilégios, o "status legal"; outras, embora a princípio sendo indivíduos representativos dos interesses do povo, advogam em causas particulares. Enfim, as possibilidades para uma ação coletiva requerem convergência a objetivos mais comuns, afinados às responsabilidades humanas urgentes, atentos a um futuro nada animador cada vez mais próximo.

Sem dúvida, um enorme esforço deve ser feito pelas comunidades políticas para estarem em consonância com cenário de uma economia pós-industrial. Do ponto de vista do trabalho, estamos ainda muito aquém de preparar profissionais para essa realidade que é cada vez mais tecnológica, robótica nas mais várias atividades manuais. Domenico de Masi em "Ócio criativo" aponta que o teletrabalho ou home office é uma realidade cada vez mais presente e se preconizam a exigência de habilidades um tanto sufocadas em nossas escolas: a criatividade a inventividade, a curiosidade pelo saber. A resposta que me parece mais óbvia para isso é reduzir os abismos sociais e garantir robustos investimentos em pesquisa, ciência e atualização do processo educacional público, além do cumprimento do direito básico a todos, que seja capaz de oferecer o desenvolvimento dessas capacidades.

A construção de uma ação coletiva, seja ela voltada para uma cidadania local ou global requer, como apontado pelo sociólogo e doutor em ciência política Humberto Dantas, um amadurecimento com relação a a politização da nossa sociedade e isso é consequência direta, a longo prazo, de uma educação democrática de qualidade. O aparente desgaste da nossa recente democracia representativa pressupõe, aos grupos sociais, principalmente a maioria oprimida e conformada a "obrigação" do ato do voto, uma pro-atividade, não passível, não resiliente, que seja no mínimo consciente, a despeito das últimas manifestações nitidamente conduzidas por desejos difusos e refém de grupos de interesses muito definidos.